sábado, 15 de maio de 2010

O capitalismo e a liberdade no banco do réus



Se você ainda não reparou ou prefere não chegar à conclusão de que a agenda verde é a nova roupa do velho movimento socialista internacional, escute Evo Morales, que resumiu: "Ou morre o capitalismo ou morre o planeta". Que pretexto melhor que a salvação da Terra poderia haver para se exigir o controle da economia global? Como propaganda de massa, é imbatível. 

No mundo com acesso às informações ignoradas ou escondidas pela grande imprensa, o embuste pseudocientífico do aquecimento global já se desmanchou como um castelinho de areia banhado pelo mar. Na outra dimensão, burocratas e jornalistas pautados pelo IPCC continuam a martelar o engodo, como se nada tivesse acontecido, mostrando que a famosa máxima do ministro da propaganda nazista nunca deixará de ter eficácia.


Os partidários do aquecimento global não sabem se vai chover daqui a dois dias, mas nos comunicam, com muita seriedade, que os mares vão subir 3 metros nos próximos 30 anos. Em 2027, a temperatura média do planeta atingirá 46 graus. A coisa não se limita aos discursos. É próprio do ativista querer transformar a fantasia em realidade, e não há limites para quem acredita carregar a chave do outro mundo possível.
No chamado Dia da Terra, 22 de abril, Evo Morales e Hugo Chávez comandaram uma Conferência dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e apresentaram uma proposta modesta: a formação de um tribunal do clima, que julgaria pessoas, empresas e países inteiros com base em suas contribuições para o aquecimento. A piada é grotesca, mas existem milhões de indivíduos mentalmente preparados para concretizá-la.


Pergunte a um meteorologista o clima da semana que vem. O máximo que ele pode fazer é indicar a probabilidade de certas condições atmosféricas. Por mais avançada que seja sua técnica, o homem não pode dar a certeza absoluta de sol no próximo domingo. O vulcão da Islândia cuspiu fogo e parou o tráfego aéreo na Europa. Nenhuma máquina previu a erupção. Não existem meios de interromper o fluxo da lava e a emissão dos gases. Só o que a humanidade pode fazer é ficar olhando e esperar passar.


A natureza é desconhecida e incontrolável. O cérebro saudável aceita este fato. Mas a operação aquecimento, como todo empreendimento de manipulação mental, veio para destruir nas multidões o senso da realidade, idiotizando-as a título de torná-las "ambientalmente responsáveis". Nesse contexto, nada mais lógico que um tribunal para julgar e punir a humanidade - em nome de uma sandice politicamente útil.


Se você ainda não reparou ou prefere não chegar à conclusão de que a agenda verde é a nova roupa do velho movimento socialista internacional, escute Evo Morales, que resumiu: "Ou morre o capitalismo ou morre o planeta". Que pretexto melhor que a salvação da Terra poderia haver para se exigir o controle da economia global? Como propaganda de massa, é imbatível. Deixa a luta de classes no chinelo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A ideologia da fé

Vejo 5 grupos distintos na sociedade moderna: No centro-direito: Pessoas que dizem conhecer a Deus e sua palavra e até são religiosas, mas de fato são desprovidas de intimidade e comunhão e experiência com Ele.

No centro-esquerda: Pessoas que buscam o ocultismo, o exotérico, as mágias e etc, mas sem conhecimento profundo do assunto, limitam-se na periferia.

No centro estão os alienados de tudo. Por serem extritamente materialístas não conseguem ou não querem perceber o espiritual.

Na extrema direita, os adoradores de Jesus Cristo, o Deus verdadeiro. São pessoas que tem experiências com Deus. Sentem a presença do Espírito Santo e sabem o que querem. Que buscam intimidade com o Reino da Luz.

Na extremidade esquerda, os adoradores de Lúcifer, o príncipe das trevas. São pessoas que tem experiências com Satanás. Fazem sacrifícios aos demônios. São pessoas de boa influência social e reservadas. Sentem e andam pelo espírito das trevas. Querem poder a qualquer custo.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A ideologia de Eike Batista

Para o encanto dos jornalistas amestrados, o "futuro homem mais rico do mundo" debita a sua vertiginosa riqueza a fatores aparentemente prosaicos. Com efeito, no mundo tenso dos negócios, ele se impôs o ritual de acrescentar um "x" - símbolo da multiplicação - às siglas das empresas que possui.


Ao contrário do milionário Jay Gatsby, personagem lapidar da obra-prima de Scott Fitzgerald, "O Grande Gatsby" (Editora Record, Rio, 2003), a origem da fortuna de Eike (Fuhrken) Batista, o futuro "homem mais rico do mundo", nada tem de enigmática: ela advém dos proveitosos conhecimentos geólogicos do pai, Eliezer Batista - engenheiro, antigo ministro de Minas e Energia do governo Jango e venerado presidente (por duas décadas) da Cia. Vale do Rio Doce - e das boas graças dos governos, em especial do governo Lula da Silva, sempre omisso, para não dizer permissivo ("entreguista", em tempos outros) na defesa dos ativos e das reservas estratégicas da nação.

Pode parecer estranho, mas, de um modo geral, embora digam o contrário, os governos socialistas adoram tornar os ricos mais ricos (com eles de permeio, claro) - e os pobres mais pobres. A postura não é nova, ultrapassa décadas, talvez séculos. O próprio Lenin, à frente da sua "ditadura do proletariado", pagando juros estratosféricos, ajudou a ampliar as fortunas de banqueiros europeus e da indestrutível família Rockefeller (Ver "Wall Street and the Bolshevik Revolution" - Antony C. Sutton, Arlington House, NY, 1974). Por sua vez, na Alemanha nazi, Adolfo Hitler, outro socialista, expandiu em proporções inimagináveis a riqueza de Gustav Krupp, empresário da indústria siderúrgica voltado para fabricação de armas e material agrícola pesado.
No Brasil, já nos tempos da Velha República, os presidentes Rodrigues Alves e o respeitabilíssimo Epitácio Pessoa abriram os generosos cofres da Mãe Gentil ao aventureiro internacional Percival Farquhar, audacioso empresário das 1001 empresas. Em "O Último Titã" (Editora Cultura, São Paulo, 2006), seu biógrafo credenciado, Charles Gauld, descreve em detalhes como Farquhar - apoiado em projetos visionários e gordas propinas - arrancou concessões governamentais e amplos financiamentos para construir e explorar, entre outras tantas diabruras, a ferrovia Madeira-Mamoré (que redundou em ruínas para turista ver) e as jazidas de ferro de Itabira, Minas Gerais, que o Dr. Getúlio, nos anos 30, resolveu encampar - tornando a emenda pior do que o soneto.

Em meados do século passado, foram incontáveis as fortunas (algumas decadentes, hoje) que Juscelino Kubistchek plantou, enquanto presidente, no eixo Brasília-Rio-Minas. O próprio João Goulart, o fazendeiro Jango - que, segundo Carlos Lacerda, só fazendo política tornou-se dono de 200 mil cabeças de gado e proprietário de 550 mil hectares de terra, área 4 vezes superior ao antigo território da Guanabara - associou-se ao folclórico Tião Maia, o "Rei do Gado", parceiro ao qual, já no exílio, por razões pouco esclarecidas, desejava surrar de rebenque em mão.

No caso do milionário Eike Batista, como era previsível, a mídia cabocla não parou de incensá-lo desde que foi elevado pela "Forbes" à condição de "8º homem mais rico do mundo". Em torno dele, editorias e repórteres operam com a tenacidade de cães farejadores. De fato, a televisão ainda não o descobriu (ou ele sabiamente a recusa), mas é difícil abrir um jornal ou revista sem que lá não esteja o Midas de Governador Valadares (educado na Alemanha) reverberando os seus bilionários projetos, tecendo loas ao "Brasil em transformação" ou repudiando o "complexo de vira-lata" que acode o brasileiro (na certa, sem pagar royalties a Nelson Rodrigues).

Para o encanto dos jornalistas amestrados, o "futuro homem mais rico do mundo" debita a sua vertiginosa riqueza a fatores aparentemente prosaicos. Com efeito, no mundo tenso dos negócios, ele se impôs o ritual de acrescentar um "x" - símbolo da multiplicação - às siglas das empresas que possui. Só para exemplificar: o milionário acredita que ao acrescentar a letra "x" à mineradora MM, de sua propriedade, já está garantindo o bom êxito empresarial da MMX.

De temperamento místico, a logomarca do seu conglomerado de empresas carrega a imagem do Sol dos Incas, prenúncio de força. Na entrada de sua casa, segundo se diz, ramos de trigo, folhas de louro, paus de canela e cristais são colocados para espantar os maus fluídos. No escritório, ele senta olhando para a porta de entrada, afim de "aparar as energias de quem vem de fora".

Outro fator importante para explicar a expansão da fortuna avaliada hoje em U$ 27,5 bilhões é "a perseverança no trabalho": à noite, mal chega ao lar - uma bela e moderna mansão, por sinal - o crédulo Midas janta e se dirige ao aparelho de TV. Diante dele, sintoniza o canal Bloomberg, especializado em negócios, e registra até altas horas da madrugada o sobe e desce das cotações da Bolsa. Explica-se o esforço: boa parte da riqueza de Eike Batista é contabilizada por ações de suas empresas vendidas em ofertas públicas no mercado de capitais. Por isso, alguns analistas financeiros da praça costumam identificá-lo como um "esperto vendedor de sonhos" - o que talvez explique, nos últimos anos, sua permanente exposição na mídia.

Fatores fundamentais, como o conhecimento que o pai Eliezer (presidente honorário da EBX) detém das potencialidades geológicas e reservas minerais do país, são pouco lembradas nas entrevistas concedidas pelo Midas. Tampouco são mencionadas as facilidades com que libera, nos balcões oficiais, as concessões para exploração de minas e jazidas previamente identificadas. Nem muito menos explica a razão do jogo bruto de Luiz Inácio para que a Vale do Rio Doce, Jóia da Coroa, lhe fosse entregue num estalar de dedos - mesmo se levado em conta o investimento feito pelo empresário no filme "Lula, o Filho do Brasil", um projeto inteiramente fracassado.

No ramo do showbizz, aliás, o perdulário Eike Batista faz coisas de admirar. Solta milhões para filmes de Jabor, Cacá Diegues e o inefável Barreto - todos "de esquerda" - mesmo sabendo que dificilmente terá retorno econômico. Recentemente, durante a estadia de Madonna no Rio, o Midas, a título de colaboração, doou U$ 7 milhões à cantora pop, que no momento se diz empenhada em lançar "um olhar moderno" no ensino de crianças carentes do Rio e São Paulo - um "olhar" muito além do vislumbrado "nas cadeiras de moral e cívica dos anos 60". Agora pensem: que nova metodologia educacional poderia lançar uma figura do showbizz, cercada de sexo, droga e rock and roll por todos os lados, sobre as nossas já combalidas crianças?

(Por pura ironia, ano passado um jornal do Amapá havia denunciado que meninas famintas de nove e dez anos estavam sendo estupradas no Garimpo de Lourenço, no município de Calçoene, local onde Eike, nos anos oitenta, iniciou a sua trajetória de milionário. Depois de esgotar o Garimpo, arrancando dele toneladas de ouro, o Midas deu no pé - ao que tudo indica sem deixar uma só escola na miserável região).

Neste torvelinho de doações e negócios em cascata, não poderia faltar a onipresente Polícia Federal, que desencadeou contra o empresário a célebre operação "Toque de Midas". Sem dúvida, um troço imprevisto. Mas, conforme explicou o próprio Eike, a operação policial não foi desencadeada devido a sua rápida ascensão numa área competitiva associada à farta distribuição de dinheiro com candidatos e partidos políticos nas eleições de 2006 (com destaque para a doação de R$ 1 milhão para reeleição de Lula, e outro tanto para a campanha de Walder Góes, governador do Amapá, território onde obteve concessão para explorar uma estrada de ferro). Não, de modo algum. O alvo da operação "Toque de Midas", que "não deu em nada", foi a compra transversa pela EBX de uma mina de ouro que havia pertencido ao notório Daniel Dantas - este sim, caído em desgraça.

No entanto, ainda que abalado pela incursão policial, Eike Batista, especialista em levantar megaprojetos, logo se voltou para a construção de um gigantesco terminal portuário - o Porto de Açu, em São João da Barra - cujo objetivo, ambicioso, é transportar minério de ferro em larga escala para abastecer o império chinês.

Em paralelo, pois não brinca em serviço, o nosso Midas associou-se à Wisco, poderosa estatal chinesa que também não brinca em serviço. Com a anuência de Lula, a MMX investe pesado na exploração de imensas jazidas de ferro e na construção de uma siderúrgica anexa ao terminal de Açu, com o objetivo de confrontar a Vale do Rio Doce, a maior mineradora do Brasil (e do mundo). Tudo isto, no exato momento em que os preços do minério, em elevação, vêm sendo duramente questionados pelos chineses (e o mercado global) empenhados em sua redução.

É provável que Eike Batista seja o que aparenta ser, isto é: um sujeito empreendedor e perseverante, obstinado em se tornar o "homem mais rico do mundo". Gracias Señor! O problema todo é que o capitalismo praticado pela China é, de cabo a rabo, predatório. Para invadir o mundo com suas bugigangas ordinárias, produzidas (e pirateadas) em cima de mão de obra escravizada e de baixos salários, não respeita nenhum padrão civilizado de comércio. E como representa uma séria ameaça, embora disponha de linhas de crédito na ordem de U$ 800 bilhões para investimentos externos nos setores de minério, petróleo e alimentos, vem sendo repelida por vários governos, entre outros o australiano, nas suas pretensões de comprar ativos e jazidas de empresas locais. Negócios com a China, como disse um observador, nunca se tornam "um negócio da China".

E este é o problema do capitalismo de Estado (do qual Eike Batista é um agregado inconsciente ou conivente): seu objetivo é concentracionário, pois que pulveriza a liberdade de escolha e o livre arbítrio, essência do capitalismo real. Demonstrando bons sentimentos, o nosso Midas proclama-se nacionalista e diz que pretende "contribuir para tornar o Brasil um país de Primeiro Mundo". Mas, como? Associando-se aos predatórios chineses? Financiando partidos políticos socialistas que fizeram do Brasil um charco de brutalidade, miséria e corrupção? Financiando "artistas" comprometidos com a derrisão dos valores morais da civilização ocidental e cristã?

Não dá para acreditar.

sábado, 27 de março de 2010

O amor constrói. Mas não ensina a tabuada

A escola brasileira parece acreditar que terá cumprido sua missão se criar um sujeito bem ajustado, que não puxa os cabelos dos coleguinhas, ainda que não saiba a tabuada nem consiga escrever dois parágrafos concatenados. Pensamento critico? Nunca!

Na teoria, ela bebe de fontes sérias, que vão da psicologia transpessoal de Abraham Maslow às ideias de inteligência emocional de Daniel Goleman. Aplicada à pedagogia, significaria alterar as práticas de sala de aula para incentivar a introdução da afetividade na relação aluno-professor e entre os próprios alunos, com o objetivo de criar um ambiente de bem-estar na escola que melhorasse o ensino-aprendizagem. Assim como a maioria dos professores brasileiros se diz construtivista sem jamais ter lido Piaget ou entendido sua teoria, também a pedagogia do afeto tem uma aplicação que, em seu simplismo, pouco tem a ver com a matriz teórica. No Brasil, usa-se essa definição para uma ideia algo difusa de que o fundamental de uma escola, de um professor, é dar afeto aos seus alunos e desenvolver com eles uma relação pessoal, suprindo a suposta carência de afeto sentida pelas crianças brasileiras.

Essa visão se espalha com enorme rapidez. Em pesquisa recente de Tania Zagury com uma amostra grande de professores de todo o país, 62% dos entrevistados disseram que "a melhor escola é aquela em que o aluno encontra professores amigos e ambiente agradável". Grupos de escolas particulares adicionam o coraçãozinho da sua pedagogia afetiva a seus anúncios, e a teoria é agora o norte pedagógico da Legião da Boa Vontade (LBV).

A pedagogia do afeto apresenta três vantagens importantes a seus adeptos.

A primeira é que ela é de difícil mensuração (como se mede o amor?), de forma que é impossível dizer se funciona ou não.
A segunda é que o uso do afeto serve como um antídoto ao fracasso de nossas escolas naquela que deveria ser sua primeira tarefa, a de transmitir conhecimentos da cultura universal e desenvolver o raciocínio analítico e a curiosidade do alunado. Sempre é conveniente defender-se do fracasso técnico atrás do véu propiciado por uma causa nobre. Afinal, o que é saber trigonometria diante de estar com o coração transbordante e em contato com sua alma? Finalmente, o terceiro benefício é que a pedagogia do afeto apresenta uma alternativa mais simpática para explicar o insucesso da escola em relação a seu principal concorrente, a ideologização do ensino, que pretende formar o "cidadão crítico e consciente". Você pode reclamar que seu filho não está aprendendo porque está sendo doutrinado, mas como atacar aqueles que se preocupam em criar um ambiente amoroso em sala de aula? Já vejo os seus simpatizantes pensando: "Mas o que esse cara defende, então? A pedagogia do ódio?". É um prato cheio para os maniqueístas.

Mais do que uma ferramenta cínica para cobrir nossa abissal incompetência no ensino, a pedagogia do afeto se encaixa como uma luva em duas vertentes da nossa cultura, especialmente populares entre os professores. A primeira é o maximalismo. Não basta ao docente brasileiro ser um profissional competente que consegue dar cabo de sua missão primeira (e nada simples) de transmitir aos alunos todo o conhecimento e desenvolver as habilidades intelectuais para navegar em um mundo crescentemente complexo. Isso é pouco. É preciso, também, desenvolver valores éticos, melhorar a autoestima do alunado, preservar o meio ambiente e prezar a diversidade. O bom professor precisa ser um herói, um abnegado, um missionário, um Quixote lutando contra uma sociedade que o ignora e o desrespeita.

A segunda vertente, muito estimulada pelo governo atual, é a ideia de que o brasileiro legítimo é um batalhador, que se esforça contra todas as adversidades. Se triunfa ou não, é irrelevante: o que importa é que não desiste nunca. E o faz mantendo, no processo, a simpatia e a cordialidade brejeira que ainda nos tornarão a Roma dos trópicos. Em suma, o processo e o esforço são mais importantes que o resultado. E o resultado do processo escolar – que deveria ser, antes de todo o resto, o aprendizado – fica de lado. A escola brasileira parece acreditar que terá cumprido sua missão se criar um sujeito bem ajustado, que não puxa os cabelos dos coleguinhas, ainda que não saiba a tabuada nem consiga escrever dois parágrafos concatenados.

A origem intelectual desse vírus que vai poluindo nosso discurso educacional é difusa, já que se trata de um pot-pourri de diversos pensamentos desconexos. Seus maiores praticantes no Brasil são Içami Tiba e Gabriel Chalita. Os escritos do primeiro se destinam mais a pais do que a professores, e se caracterizam pela superficialidade e autopromocionalismo dos manuais de autoajuda. Seu magnum opus, Quem Ama, Educa!, destila todos os assuntos imagináveis sobre educação dos filhos em apenas 300 páginas, com uma bibliografia de dezessete autores. É inócuo.

Já Chalita se vale de citações de grandes pensadores para convencer os leitores incautos e incultos de que se trata de um trabalho de densidade intelectual. Sob esse disfarce, esconde-se uma retórica insidiosa, com o objetivo claro de bajular os docentes, a fonte de votos do "pensador" que virou político. Na cosmovisão chalitiana, os professores são os heróis da nossa educação e as vítimas de um fracasso que é da civilização, não da escola. No autoexplicativo Educação: a Solução Está no Afeto, Chalita tenta passar do plano teórico à sala de aula, para descrever como seria uma aula afetiva: "Em matemática, física ou química, como se abordaria esse tema? Seriam feitas reflexões sobre as sensações humanas, o medo, a solidão. As retas, o plano, a trigonometria das ruas do Rio de Janeiro em que conviveram amigos – Vinicius, Toquinho, Tom Jobim (...)". Então tá. Adiciona: "Nada substitui o velho lar. A educação por conta do estado e das instituições não funciona". Assertiva curiosa para alguém que foi secretário da Educação de São Paulo, mas, pelo menos, consistente com sua práxis. Nos quatro anos em que ele esteve no cargo, os alunos sofreram: caiu em 700 000 o número de matrículas nos níveis fundamental e médio, caíram as taxas de aprovação e conclusão do ensino fundamental e mais de 300 escolas foram extintas. Mas com muito afeto.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Raça e ira

Ao negar a mistura de raças e manter a ideia do estupro ancestral, criam a figura de um africano puro, sem o qual não podem sustentar o libelo dantesco.

Durante a audiência pública realizada no STF para discutir as cotas raciais tive a oportunidade de expor durante 40 minutos o meu entendimento sobre um assunto ao qual me dedico a estudar mais profundamente há três anos. Quem assistiu viu que defendi especialmente a adoção do tempo integral em todas as escolas públicas que ministrem ensino fundamental, para mim verdadeiro marco da transformação social no país. Mostrei que se tratava de uma escolha difícil entre propor uma ação afirmativa que socorreria todos os brasileiros em posição de inferioridade, independentemente da cor da pele, ou atender parcela minoritária, igualmente sofrida, classificada como afrodescendente. Verdadeira escolha de Sofia.

Muitos dos debatedores, inclusive do Movimento Negro, entenderam minhas ponderações sobre as cotas sociais como lógicas e acertadas. Logo depois se valeram da maledicência preparada para desfazer reputações, promover a fraude estatística, deturpar números e principalmente se utilizar de espertalhões, que recheiam os bolsos a serviço de ONGs ambientalistas e racialistas, para caluniar em nome de duvidosa historiografia.

Os jornalistas Elio Gaspari e Miriam Leitão, contaminados pelo narcótico da ira, decidiram por pincelar trechos do meu depoimento para me classificar de forma leviana como negacionista da escravidão. Não sou eu quem está na posição de julgar a história como se ela fosse objeto de especulação ideológica em favor das cotas raciais. Apenas utilizei argumentos de um dos maiores pesquisadores da escravidão africana, Paul. E. Lovejoy, para rebater o comentário de um estudante secundarista, numa audiência no Senado, para quem os brasileiros haviam praticamente sequestrado os negros na África. Afirmação que mereceu repulsa do historiador José Roberto Pinto de Goés, que entendeu o dito como retrato profundamente desregrado da qualidade educacional brasileira, o que estamparia o nível da história que se ensina nas nossas escolas públicas. Lovejoy mostra em números detalhados que a ignominiosa prática estava institucionalizada naquele continente pelo menos 850 anos antes de Vasco da Gama atravessar o Cabo da Boa Esperança.

Demonstra, ainda, que a escravidão ocorreu na região Transaariana entre os anos 650 e 1600, prosperou, paralelamente, em direção do Mar Vermelho por outros 800 anos, ganhou vigor a partir de meados de 1400 com o tráfico pelo Atlântico e se manteve fundamental para a economia do continente até o século passado. Seria consolo moral aceitar a tese de que foram africanos os escravizados, quando na verdade os africanos escravizavam os seus iguais por razões econômicas, de beligerância e de manipulação religiosa. Devemos condenar o Brasil escravagista, mas não temos direito de culpar as atuais gerações.

O propósito foi de retrucar a falácia do sequestro e de sustentar que a escravidão não foi inventada no Brasil, e que as cotas raciais, além de não resolverem ou minimizarem o problema, não podem ser consideradas uma ordem de pagamento para quitação de uma suposta dívida que os brasileiros de hoje teriam de honrar com 87% de descendentes que têm acima de 10% da ancestralidade africana no seu DNA. O grande problema dos racialistas é o de abastardar a miscigenação, pois temos também mais de 90% de brasileiros com ancestralidade europeia e mais de 60% com ancestralidade indígena. Ao negar a mistura de raças e manter a ideia do estupro ancestral, criam a figura de um africano puro, sem o qual não podem sustentar o libelo dantesco. Como é que uma ancestralidade tão misturada pode ter se originado unicamente ou majoritariamente a partir da violência sexual? Por que não contestaram Ali Kamel, quando ele aqui (19/9/ 2006), fez a mesma afirmação?

Neste ponto vale o entendimento de Gilberto Freyre para quem somos uma “sociedade que se desenvolveria menos pela consciência de raça, quase nenhuma no português cosmopolita e plástico, do que pelo exclusivismo religioso desdobrado em sistema de profilaxia social e política”. Ou a opinião de Sérgio Buarque de Holanda, que ao tratar do negro na sociedade colonial escreveu que “sua influência penetrava sinuosamente o recesso doméstico, agindo como dissolvente de qualquer ideia de separação de castas ou raças, de qualquer disciplina fundada em tal separação”. Feliz do Brasil que tem um Joaquim Nabuco. Ele fez da sua vida e obra meios para desmontar a escravidão justamente por entender que a prática estava aberta a todos. E é isso o que defendo: cota temporária nas universidades públicas para negros, brancos, índios, pardos, cafuzos, caboclos ou quaisquer outras denominações que venham a ter os descendentes do que Kamel chama de beleza da miscigenação brasileira, desde que sejam pobres, estes sim os verdadeiros espoliados do Brasil.

Por : Senador Demóstenes Torres (DEM-GO)