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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Antes de Brasiguaios, Brasileiros

A falta de respeito com os nossos cidadãos brasileiros que ajudaram e ainda ajudam a construir o progresso do Paraguai é patente e a falta de uma postura do Governo Brasileiro a esse respeito beira às raias da irresponsabilidade.

Assistido à reportagem que veiculou na manhã de domingo 18/07, na Rede Globo de Televisão no programa Globo Rural e que depois se repetiu na manhã de segunda 19/07 no programa Bom Dia MS tomei conhecimento da existência de um grupo de retirante que estão abandonando o vizinho Estado do Paraguai e se amontoando nas margens da BR 163, no município de Itaquiraí/MS.
Já tinha ouvido algo a respeito mas, confesso, que ao assistir a reportagem da Globo uma tristeza invadiu minh’alma e acredito que não fui o único cidadão brasileiro a ficar indignado a respeito de um assunto que a meu ver merece a nossa solidariedade e uma atenção especial de nossas autoridades constituídas, razão pela qual resolvi, a despeito de minha pouca sapiência acerca do assunto, redigir essas apertadas linhas.
Não bastasse todos os inconvenientes causados pelo contrabando de arma, tráfico de droga, disseminação de focos de doenças que afetam nosso rebanho e por sonsequência nossa economia, dentre outros malefícios oriundos da omissão deliberada de algumas autoridades do país vizinho, estamos sendo vítimas também de desrespeitos aos direitos humanos fundamentais de nossos nacionais que vivem e trabalham naquele país.
Falo de nossos corajosos irmãos brasileiros ou “brasiguaios” como são conhecidos que, por razões de uma conjuntura política e econômica adversa, num passado não muito distante, se enveredaram por um país desconhecido e selvagem em busca de terras produtivas para construir um sonho que aos poucos foi se transformando em um terrível pesadelo.
E a causa maior não só da minha, mas, acredito que também da sua indignação é o fato de que essas pessoas, que de fato tinham e têm uma autêntica vocação para o trabalho rural, ao contrário de muitos que são agraciados com lotes da nossa cambaleante reforma agrária, jogaram fora a melhor parte de sua vida produtiva ajudando a construir riquezas alheias e hoje se vêem obrigados a fugir de suas propriedades como se fossem marginais.
E o que é mais degradante, quando chegam ao seu país de origem, sem nome, sem terra, sem casa e sem causa, são amontoados como se fossem um bando de flagelados às margens de uma rodovia, sob barracos de lona e passam a viver de favores de um incerto programa social patrocinado pelo governo, vendo seus filhos sendo obrigados a morar e estudar sob um barrado de lona, motivado por uma professora, diga-se de passagem, entusiasmada, diante dos limitadíssimos recursos necessários para atender à sua nobre e bela missão de ensinar.
Penso que essas pessoas deveriam ser tratadas com mais dignidade pelo Estado Brasileiro no seu retorno, como não o foram pelo Estado Paraguaio. Que ao retornar para o seu país de origem, fossem melhor recebidos do que na realizadade estão sendo. Tenho certeza de que estrangeiros em situações semelhantes, exilados políticos que o país acolhe e os que são assistidos por programas humanitários dos quais o Brasil é signatário são tratados de forma mais adequada.
Digo isso sem fazer uma comparação com outros países como Japão, Itália e Alemanha dentre outros que adotam políticas de tratamento especial aos seus cidadãos e aos descendentes de seus antepassados que foram obrigados a deixar a sua pátria em alguma situações adversa qualquer que aconteceu no passado.
A falta de respeito com os nossos cidadãos brasileiros que ajudaram e ainda ajudam a construir o progresso do Paraguai é patente e a falta de uma postura do Governo Brasileiro a esse respeito beira às raias da irresponsabilidade.
Em que pese ser o Paraguai uma nação soberana, não se pode olvidar que em fazendo parte de um bloco político importante como o Mercosul, pode-se exigir do Governo Paraguai um postura mais sensata.
Por outro lado, essa soberania, não está acima dos limites e das garantias básicas que encerram os direitos humanos do povos, capitaneado no direito à vida; à liberdade e ao respeito ao direito de propriedade que, a nenhum país por mais soberano que seja é dado elidir.
A exigência de uma postura mais enérgica da diplomacia brasileira é uma medida que se impõe. Exigir do país vizinho que respeite os direitos mais básicos de nossos cidadãos assim como respeitamos os direitos não só dos paraguaios que aqui residem, mas, de todos os estrangeiros que vivem sob a égide de nossa soberania.
Que os próximos governantes e legisladores que serão eleitos e reeleitos em outubro próximo futuro, olhem com mais carinho para esses heróis anônimos, sem direito a medalhas e aos despojos da guerra inglória que travaram em território alheio, para que eles possam, por ocasião do seu retorno á sua pátria amada serem tratados com o mínimo de dignidade, pois é o mínimo que o exercício da cidadania exige e que o cidadão merece.


Messias Furtado de Souza
Delegado de Polícia
Fátima do Sul - MS

sábado, 27 de março de 2010

O amor constrói. Mas não ensina a tabuada

A escola brasileira parece acreditar que terá cumprido sua missão se criar um sujeito bem ajustado, que não puxa os cabelos dos coleguinhas, ainda que não saiba a tabuada nem consiga escrever dois parágrafos concatenados. Pensamento critico? Nunca!

Na teoria, ela bebe de fontes sérias, que vão da psicologia transpessoal de Abraham Maslow às ideias de inteligência emocional de Daniel Goleman. Aplicada à pedagogia, significaria alterar as práticas de sala de aula para incentivar a introdução da afetividade na relação aluno-professor e entre os próprios alunos, com o objetivo de criar um ambiente de bem-estar na escola que melhorasse o ensino-aprendizagem. Assim como a maioria dos professores brasileiros se diz construtivista sem jamais ter lido Piaget ou entendido sua teoria, também a pedagogia do afeto tem uma aplicação que, em seu simplismo, pouco tem a ver com a matriz teórica. No Brasil, usa-se essa definição para uma ideia algo difusa de que o fundamental de uma escola, de um professor, é dar afeto aos seus alunos e desenvolver com eles uma relação pessoal, suprindo a suposta carência de afeto sentida pelas crianças brasileiras.

Essa visão se espalha com enorme rapidez. Em pesquisa recente de Tania Zagury com uma amostra grande de professores de todo o país, 62% dos entrevistados disseram que "a melhor escola é aquela em que o aluno encontra professores amigos e ambiente agradável". Grupos de escolas particulares adicionam o coraçãozinho da sua pedagogia afetiva a seus anúncios, e a teoria é agora o norte pedagógico da Legião da Boa Vontade (LBV).

A pedagogia do afeto apresenta três vantagens importantes a seus adeptos.

A primeira é que ela é de difícil mensuração (como se mede o amor?), de forma que é impossível dizer se funciona ou não.
A segunda é que o uso do afeto serve como um antídoto ao fracasso de nossas escolas naquela que deveria ser sua primeira tarefa, a de transmitir conhecimentos da cultura universal e desenvolver o raciocínio analítico e a curiosidade do alunado. Sempre é conveniente defender-se do fracasso técnico atrás do véu propiciado por uma causa nobre. Afinal, o que é saber trigonometria diante de estar com o coração transbordante e em contato com sua alma? Finalmente, o terceiro benefício é que a pedagogia do afeto apresenta uma alternativa mais simpática para explicar o insucesso da escola em relação a seu principal concorrente, a ideologização do ensino, que pretende formar o "cidadão crítico e consciente". Você pode reclamar que seu filho não está aprendendo porque está sendo doutrinado, mas como atacar aqueles que se preocupam em criar um ambiente amoroso em sala de aula? Já vejo os seus simpatizantes pensando: "Mas o que esse cara defende, então? A pedagogia do ódio?". É um prato cheio para os maniqueístas.

Mais do que uma ferramenta cínica para cobrir nossa abissal incompetência no ensino, a pedagogia do afeto se encaixa como uma luva em duas vertentes da nossa cultura, especialmente populares entre os professores. A primeira é o maximalismo. Não basta ao docente brasileiro ser um profissional competente que consegue dar cabo de sua missão primeira (e nada simples) de transmitir aos alunos todo o conhecimento e desenvolver as habilidades intelectuais para navegar em um mundo crescentemente complexo. Isso é pouco. É preciso, também, desenvolver valores éticos, melhorar a autoestima do alunado, preservar o meio ambiente e prezar a diversidade. O bom professor precisa ser um herói, um abnegado, um missionário, um Quixote lutando contra uma sociedade que o ignora e o desrespeita.

A segunda vertente, muito estimulada pelo governo atual, é a ideia de que o brasileiro legítimo é um batalhador, que se esforça contra todas as adversidades. Se triunfa ou não, é irrelevante: o que importa é que não desiste nunca. E o faz mantendo, no processo, a simpatia e a cordialidade brejeira que ainda nos tornarão a Roma dos trópicos. Em suma, o processo e o esforço são mais importantes que o resultado. E o resultado do processo escolar – que deveria ser, antes de todo o resto, o aprendizado – fica de lado. A escola brasileira parece acreditar que terá cumprido sua missão se criar um sujeito bem ajustado, que não puxa os cabelos dos coleguinhas, ainda que não saiba a tabuada nem consiga escrever dois parágrafos concatenados.

A origem intelectual desse vírus que vai poluindo nosso discurso educacional é difusa, já que se trata de um pot-pourri de diversos pensamentos desconexos. Seus maiores praticantes no Brasil são Içami Tiba e Gabriel Chalita. Os escritos do primeiro se destinam mais a pais do que a professores, e se caracterizam pela superficialidade e autopromocionalismo dos manuais de autoajuda. Seu magnum opus, Quem Ama, Educa!, destila todos os assuntos imagináveis sobre educação dos filhos em apenas 300 páginas, com uma bibliografia de dezessete autores. É inócuo.

Já Chalita se vale de citações de grandes pensadores para convencer os leitores incautos e incultos de que se trata de um trabalho de densidade intelectual. Sob esse disfarce, esconde-se uma retórica insidiosa, com o objetivo claro de bajular os docentes, a fonte de votos do "pensador" que virou político. Na cosmovisão chalitiana, os professores são os heróis da nossa educação e as vítimas de um fracasso que é da civilização, não da escola. No autoexplicativo Educação: a Solução Está no Afeto, Chalita tenta passar do plano teórico à sala de aula, para descrever como seria uma aula afetiva: "Em matemática, física ou química, como se abordaria esse tema? Seriam feitas reflexões sobre as sensações humanas, o medo, a solidão. As retas, o plano, a trigonometria das ruas do Rio de Janeiro em que conviveram amigos – Vinicius, Toquinho, Tom Jobim (...)". Então tá. Adiciona: "Nada substitui o velho lar. A educação por conta do estado e das instituições não funciona". Assertiva curiosa para alguém que foi secretário da Educação de São Paulo, mas, pelo menos, consistente com sua práxis. Nos quatro anos em que ele esteve no cargo, os alunos sofreram: caiu em 700 000 o número de matrículas nos níveis fundamental e médio, caíram as taxas de aprovação e conclusão do ensino fundamental e mais de 300 escolas foram extintas. Mas com muito afeto.